Orlando, de Virginia Woolf

Virginia-Woolf-Twitteratu-001Este é um livro impressionante pelo tempo em que a história se passa e pelas características e desenvolvimento do personagem principal. O tempo inicia-se no Período Elisabetano com Orlando aos seus 16 anos, depois transcorre 350 anos passando por várias épocas seguintes; já o personagem, ‘Ele – pois não havia dúvida quanto ao seu sexo, embora a moda da época fizesse algo para disfarça-lo […]’, Orlando, é um aristocrata elegante e bonito para a sua época, descendente de uma família muito nobre e com muitos privilégios e riqueza. Entretanto, os pais de Orlando morrem e ele acaba habitando o entorno de Elizabeth I que tem um grande fascínio pelo jovem, pelos seus modos e pela sua beleza; por outro lado, chega um momento que Orlando se cansa, ‘não apenas do desconforto desse tipo de vida e das tortuosas ruas dos arredores, mas também das maneiras primitivas do povo. Pois é preciso lembrar que o crime e a pobreza não tinham para os elisabetanos a mesma atração que têm para nós. Eles não possuíam a vergonha moderna de ter aprendido nos livros.’

Vale ressaltar a ideia do tempo de 350 anos transcorridos desde o século XVI; o personagem não se trata de nenhum ser sobrenatural ou tem poderes, ou imortalidade, não é isso! A ideia da Virginia Woolf fica bem evidente no livro quando a autora diferencia dois tempos, o ‘tempo físico’ e o ‘tempo da mente’; o primeiro trata-se daquele vivido e passado pelos dias incessantemente de uma certa ‘lei natural’, o segundo é aquele quando fazemos algo e tudo se dissipa e nada parece mais momentâneo, porém tudo se torna mais fluido e passageiro, a dimensão do tempo físico se perde com o tempo da mente. Sendo assim, o tempo passa pela vida de Orlando de forma mais rápida do que de outros e não é tão perceptível como os demais o sentem. Ademais, existe também um recurso bastante evidente que a Virginia Woolf faz no romance por ele ter um tempo tão longo assim, que é pôr em evidência as transformações dos homens em determinados períodos históricos, assinalando a sua certeza de que nada é muito duradouro, e o homem é um ser completamente mutável dependendo das condições do Tempo em que vive e do Lugar onde habita. Uma passagem muito interessante do romance que precisa ser enfatizada é a passagem do Período Elisabetano, para séculos a frente, no Período Vitoriano; quando é descrita a Época Vitoriana chegando, Virginia faz questão de assinalar como o tempo muda, o céu começa a ficar cinzento, o ar começa a mudar de consistência, e um clima estranho começa a pairar sobre a Inglaterra. Trata-se, na verdade, de uma sinalização em contrapor dois períodos tão distintos: O Período Elisabetano (1558-1603) foi aquele de maior impacto artístico, uma época dourada para as artes em geral na Inglaterra (por exemplo, é nesse período que surge o Shakespeare), as roupas da época eram mais despojadas, apesar de obedecerem a um rigor de excelência e moral na corte ainda presente. No mais, é um período de saudosismo na Inglaterra em virtude do apogeu das artes; em contrapartida, o Período Vitoriano (1837 – 1901) foi o período de prosperidade com a expansão do Império Britânico ao mundo, mas também teve vários limites impostos ao comportamento das pessoas, por exemplo, foi um dos períodos que mais houve censura sobre as roupas das pessoas e os modos à mesa, em suma, a moral era o grande levante dessa época, inclusive porque a própria Rainha Vitória afirmou que o progresso da Grã-Bretanha se deu por causa da moral impecável de seu tempo. Foi um período complicado em que as mulheres foram interditadas à participação da esfera pública, restringindo-as apenas ao âmbito da casa; havia também uma ideia de que a lady, para ser de respeito, precisava saber falar francês, tocar piano, saber dançar e ter habilidades exímias com a agulha e os tecidos. Foi também nesse período que livros foram escritos corroborando com a ideia de que as mulheres só conseguiam amar o lar, os filhos e os deveres domésticos, e que o desejo sexual do homem não poderia ser freado pela mulher, pois poderia trazer vários riscos ‘à saúde masculina’. Ou seja, foi um período terrível de contenção das paixões humanas; desse modo, Virginia Woolf, feminista como era, mostra esse período de uma forma repugnante e de muitas ‘novidades’ desconhecidas de outras épocas; há uma passagem no livro que a Virginia Woolf cita um acontecimento de que Orlando, ao voltar para Londres, se depara com uma cena esquisita: homens e mulheres andando de mãos dadas pelas ruas, como se as mulheres pertencessem a eles. E por aí vão as críticas ao Período Vitoriano…

Mas atentando-se à história, existem alguns elementos textuais interessantes e ideias melhores ainda. O livro é escrito em terceira pessoa, em outras palavras, há um narrador onisciente que conta a vida de Orlando desde os seus 16 anos até 350 anos adiante, o que confere à narrativa um caráter interessante de percepções e visões sobre o personagem Orlando e a visão dele sobre a sociedade e o mundo. Por conseguinte, o primeiro e o segundo capítulos narram as passagens de vida de Orlando na corte e seu desapego com este mundo; também é citada uma tentativa do protagonista de dar sentido à sua vida naquele lugar ‘inóspito’ que era por meio da escrita. Uma atividade pouco reconhecida e de muito pouco status para um aristocrata tomar isso como imperativo de sua vida, mas ele tenta mesmo assim. Ele acaba lendo alguns livros e se encanta por um dos autores, o que o leva a ficar extasiado pela forma como esse autor escreve, inspirando Orlando até a escrever suas próprias obras; até um encontro entre eles é marcado, mas logo Orlando frustra-se pelas chacotas feitas a ele e, além do mais, por ter tido uma ideia diferente do autor por meio da leitura de seus livros que não correspondia com o real autor, fazendo com que ele se retire de vez desse mundo e parta para novas descobertas. Dessa forma, Orlando pede para ser proclamado embaixador e viaja para Constantinopla a fim de respirar novos ares e ter outra vida mesmo que ela seja solitária, porque ‘a solidão foi escolha sua’. [Há um ressentimento amoroso que acabou dando errado que também influencia da decisão de Orlando de se retirar da Inglaterra]

Justamente em Constantinopla, no capítulo 3, que tem início uma das partes mais lindas, bem escritas e impressionantes do livro: Orlando vira uma mulher! [Quando li esta parte, foi uma aproximação com a beleza de uma escrita surpreendente, que faz da Virginia Woolf uma das melhores escritoras que eu tive contato até hoje].

Não vou me estender nessa parte porque o melhor é o contato individual e único que cada um terá com a parte, no entanto, vou mencionar algumas ideias legais da autora sobre essa parte.

Quando Orlando vira mulher, existe um interlúdio até a sua transmutação que, quando termina, não resulta em um assombro ou uma rejeição quanto à sua nova condição. Ele não modifica o seu nome, apenas é acrescentado o ‘lady Orlando’ e sua vida segue normalmente até ele se deparar e ‘conviver’ com um grupo de ciganos que ele encontra, e, nessa parte do livro, também existe uma reflexão intensa sobre o ser humano e as percepções e vivências de mundos diferentes (o dos nômades ciganos e o da aristocracia inglesa) que não irei me prolongar. Após todos esses acontecimentos, lady Orlando retorna à Inglaterra completamente transfigurado de corpo e alma, o que o leva a encontrar alguns embates de sua nova vida com a vida inglesa. Aqui ocorre um dos pontos chaves da história: quando lady Orlando, ao ver todo aquele tempo vitoriano, se assusta com o noivado e o casamento que se tornaram algo estranho e obsessivo àquela gente, e chega a afirmar, sem dúvida alguma, de que nunca se casaria. Até que ela tropeça andando na rua e cai, ao mesmo tempo, um cavalheiro (Marmaduke Bonthrop Shelmerdine) lhe estende a mão para ajudá-la e, de repente, tornam-se noivos. Nessa passagem do livro, fica clara a mutação dos homens conforme o Tempo e o Lugar em que se encontram, pois lady Orlando, depois de ter sua vida completamente mudada e ainda ter alguns preceitos elisabetanos de sua época que se chocam com os princípios vitorianos, acaba se adaptando e se ‘moldando’ àquela época com seus costumes e cultura. Dessa maneira, fica evidente o preceito de Virginia Woolf sobre a adaptabilidade e eterna mudança do homem que não tem uma essência, mas que tem uma história.

Por fim, lady Orlando acaba se casando e tendo uma vida com Shelmerdine, e o final do livro chega sem um sentido de término da história, mas apenas que o evento final citado seria apenas mais um dos muitos anos vividos por Orlando após esses 350 anos já passados. O livro não é de escrita difícil, podendo ser lido tranquilamente até porque a história cativa o leitor de uma forma ímpar, trazendo elementos surpresas de reflexão e de pensamento sobre a identidade das pessoas, contemplando também aspectos de crítica e quebra-filosófica ao pensar o homem como um ser na ‘ipseidade’.

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