As Intermitências da Morte, de José Saramago

José saramago “Você já pensou se ninguém mais morresse?”

“No dia seguinte, ninguém morreu.” É com essa frase que José Saramago inicia o seu ensaio cujo tema central e fiador das histórias particulares é a morte. Em um lugar hipotético, num tempo hipotético, mas que remete muitas vezes à nossa época, Saramago tem uma ideia de escrever uma história que dialogasse com um dos principais temas, aflições e mistérios que rodeiam o homem, contudo, de uma maneira diferente: “O que aconteceria se as pessoas não mais morressem?”. Com perguntas imaginárias iguais a essa, é possível chegar ao cerne da discussão e das abordagens filosóficas que o autor propõe para pensar a importância da morte em relação à vida e também quais seriam as consequências de uma possível “vida eterna terrena”. Dessa forma, com uma temática tão própria e construtiva, Saramago convida o leitor a se inteirar em reflexões políticas e sociais importantes concernentes à finitude, o que, por sua vez, faz com que imaginemos as configurações de diversas instituições sociais modificadas em que uma situação caótica é estabelecida simplesmente pela ausência da morte na vida dos homens. Já foi mencionado, o livro começa com a categórica afirmação de que ninguém mais morreria naquele país, ou seja, segundo a história, a partir do primeiro dia do ano novo, ninguém mais, seja novo ou velho, morreu naquele lugar. Continuar lendo

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Orlando, de Virginia Woolf

Virginia-Woolf-Twitteratu-001Este é um livro impressionante pelo tempo em que a história se passa e pelas características e desenvolvimento do personagem principal. O tempo inicia-se no Período Elisabetano com Orlando aos seus 16 anos, depois transcorre 350 anos passando por várias épocas seguintes; já o personagem, ‘Ele – pois não havia dúvida quanto ao seu sexo, embora a moda da época fizesse algo para disfarça-lo […]’, Orlando, é um aristocrata elegante e bonito para a sua época, descendente de uma família muito nobre e com muitos privilégios e riqueza. Entretanto, os pais de Orlando morrem e ele acaba habitando o entorno de Elizabeth I que tem um grande fascínio pelo jovem, pelos seus modos e pela sua beleza; por outro lado, chega um momento que Orlando se cansa, ‘não apenas do desconforto desse tipo de vida e das tortuosas ruas dos arredores, mas também das maneiras primitivas do povo. Pois é preciso lembrar que o crime e a pobreza não tinham para os elisabetanos a mesma atração que têm para nós. Eles não possuíam a vergonha moderna de ter aprendido nos livros.’ Continuar lendo

Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley

Só pelo título do livroaldous-huxley-resized, é possível perceber uma ironia do autor que está presente em todos os capítulos, o que deixa uma característica marcante na obra com uma ironia que não é trivial, uma vez que é pensada em plenas “imaginações” humanas após a maior guerra já presenciada pela humanidade até aquele momento. É em 1932 que Aldous Huxley publica uma de suas maiores obras, apesar de a crítica literária não a reconhecer como a melhor, a distopia, Admirável Mundo Novo. É um livro escrito após a Primeira Guerra Mundial e que foi revisado pelo próprio autor em 1946 com algumas considerações iniciais, rendendo a origem de um prefácio que contribuísse para introduzir a leitura e que servisse como fio condutor do enredo.
A história do livro passa-se em 634 d. F. (depois de Ford) numa sociedade completamente permeada pelos avanços científicos que chegam a fazer parte de toda a vida dos homens. Além disso, uma sociedade arraigada num regime social rígido e fixo que não permite qualquer manifestação de individualidade ou de liberdade artística; muitos livros são proibidos, existe uma censura muito grande no comportamento das pessoas daquela sociedade que, por sua vez, é dividida por esferas sociais completamente impermeáveis em que cada um desempenha determinada função de acordo com o “nascimento”. Só abrindo um parêntesis: Continuar lendo